sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A história do Rim - Parte 2

(Sra. Rita Ambrósio desce e lê a parte 1 primeiro, cumps.)

-Tens a certeza?
-Sim, eu vi-o... ah... ele era lindo... si visses a cara dele...

Algumas horas depois do incidente próximo da caravela num pequeno lago de agua quente, os seres mais belos do universo tratam de si, mas há uma em especial que está mais feliz, mais bonita...

As sereias não devem ver humanos, não se sabe porquê, mas sempre foi assim ao longo dos anos.

Annie, era uma sereia jovem, com uns lindos cabelos castanhos, os mais bonitos do oceano, como todas as outras sereias, ela sonhava... e foi naquela noite, em que viu o que não devia ter visto, que também a sua vida mudou, ela apaixonou-se e então todos os dias se foi aproximando cada vez mais da costa, da praia.

Um mês passou e Paul está de volta à sua terra natal, no final, a viagem não deu resultados, não encontraram nada, mas Paul, encontrou o maior tesouro que algum sonhador pode encontrar.

Os dias passavam, e todos os dias Paul passeava pela praia na esperança de voltar a ver tão bela visão.

Então um dia Annie aumentou um pouco os seus horizontes, finalmente alcançou a praia, a terra. Era um sonho realizado.

Em terra um pensador, um sonhador, um navegador, Paul. Passeava, olhou de relance, ele entendeu, ele percebeu ele sabia que Annie estava lá, ele viu-a.
E então, todos os dias eles se vinham ver à praia, não falavam, apenas se contemplavam e cada dia a sua relação era mais forte, e ambos chegaram à mesma conclusão: Amavam-se.

Mas era inútil, ele era humano, e ela uma sereia, nunca um humano e uma sereia poderiam passear no parque, partilhar a mesma cama, ou mesmo sentar-se à mesma mesa, nunca um humano e uma sereia poderiam se amar...
Mas nunca é muito tempo, e de facto, eles amam-se, apesar de ser impossível.

Era um fim de tarde de outono, o sol ameaçava desaparecer no horizonte azul deixando por trás um bonito céu vermelho. E como todos os dias Paul e Annie iam à praia, e, um em terra e outro no mar, ficavam-se a contemplar... mas hoje era diferente, Paul deu o primeiro passo.

-O meu nome é Paul, gostaria de saber o teu...

Um pouco envergonhada, Annie responde - O meu nome é Annie, durante todos estes meses, temo-nos amado, em silêncio, mas tu agora quebraste-o, porquê?

-Receio que amanhã não esteja aqui, e assim será daqui em diante, vou partir em viagem pelos 7 mares, vou descobrir tesouros, terras verdes e novas criaturas, queria um Nome, um Nome para quem pudesse escrever, um nome pelo qual pudesse chamar nos momentos mais complicados, um nome para tatuar no meu coração, e associar À tua recordação.

-Mas tu voltarás, um dia, certo?

-Nada neste Mundo é mais incerto que o meu regresso.

-Fica comigo.

-Como? Não posso ficar com um sonho uma miragem, algo que é suposto não existir, mas que no entanto existe e brinca com os meus sentimentos e pensamentos.

-Porque negas a minha existência?

-Porque és diferente de mim, também tu deverias negar a minha existência.

-Foste a melhor coisa que Deus me deu. Porque-te haveria de negar?

-Já disse, somos diferentes, não nos podemos amar!

-Mas nós somos iguais! Nós ambos nos amamos, diz-me, diz-me algo que tu tenhas que eu não tenha?! Diz-me se fores capaz!

-Tu não tens algo tão simples como um rim!

-Eu tenho um rim, eu sou igual a ti.

-Prova-mo.

A jovem sereia não respondeu.

Paul baixou a cabeça.

-Partimos amanhã, adeus Annie, foste a melhor coisa que me aconteceu.

E dito isto Paul saiu da praia deixando apenas as suas pegadas para trás.
O rosto de Annie molhou-se subitamente, mas não era a àgua do mar, Annie chorava como nunca havia chorado antes, oh mundo cruel, mas porquê, porque é que havias dada algo tão precioso se sabias que ias tira-lo...

A sereia ergueu-se e gritou para Paul que já ia longe:
-Eu amo-te! E o meu amor por ti é mais forte que qualquer Lei, que qualquer Monstro, que qualquer diferença, o meu amor por ti é tão forte que pode mover o próprio mar e até montanhas... mas o meu amor está incompleto, e para isso preciso de saber...
O Quanto me amas...

Paul cerrou os punhos, fechou os olhos com toda a força para as lágrimas não lhe escaparem pelos olhos...

-Eu...-Paul deixou-se cair de joelhos no chão e as lágrimas que tanto sustera estavam agora a escorrer-lhe pela cara abaixo acabando por desaparecer na areia da praia- O MEU AMOR POR TI É MAIS FORTE QUE QUALQUER DEUS, É MAIS FORTE QUE A PRÓPRIA TERRA, AMO-TE MAIS DO QUE O NÚMERO DE ESTRELAS NO CÉU, DO QUE O NÚMERO DE GOTAS NO MAR, O MEU AMOR POR TI É MAIOR QUE O CÉU E MAIS PROFUNDO QUE O MAR! Não existe algum número ou palavra inventada para descrever o que eu sinto por ti, mas tão certo como o dia e a noite, eu sei, desde a primeira vez que te vi: Eu Amo-te.

Nesse momento a cauda de Annie caiu na areia da praia, no seu lugar estavam agora suas pernas novinhas em folha. Os últimos raios de sol vermelho desaparecera e a escuridão apoderou-se da situação. À Luz do luar Paul correu para Annie, abraçou-a beijou-a, estava tão linda como a primeira vez que a vira, era um sonho, o inalcançável, o impossível, todas estas palavras são fictícias, não existe impossível, ou sonhos, se existem no nosso coração, então nós podemos alcançar o inalcançável, podemos conseguir o impossível e realizar os nossos sonhos.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu naquele final de tarde, naquele dia de outono, naquela praia há muito tempo atrás, nem o próprio mar, o ser mais sábio que existe sabe o que se passou.

Mas ninguém também é uma palavra fictícia, pois existe sempre alguém... Naquele fim de tarde uma cauda de sereia foi deixada na praia, da cauda de sereia caíram duas espécies de feijões muito peculiares, sim, era a prova, a jovem sereia tinha rins apesar de ser impossível, apenas eles sabem a verdadeira história, mas agora o tempo transformou-os em pedra...

Hoje, uma jovem rapariga apanhou uma pedra peculiar, com a forma de um feijão.

-Conta-me o teu segredo -sussurrou a rapariga à Pedra.

"O Amor é algo mais forte que qualquer Monstro, Lei, Deus e até a própria Terra, Ele é tão forte que pode até mover Montanhas e mesmo o Oceano. Quando se tem força de vontade, como é o amor, tudo é possível, e nós somos os seres mais poderosos de todo o universo quando amamos. Eu, eu sou a prova que o Amor é capaz de tudo, como foi capaz de uma Sereia ter um simples rim, ou mesmo transformar-se em Humana. Eu sou imortal, assim como o amor, espero que imortal não seja uma palavra fictícia.
Este é o meu segredo, guarda-o bem, mantém-o longe do Oceano e do Tempo, guarda o segredo para ti e não te esqueças dele, Annie."

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A história do Rim - Parte 1

Bem, antes do mais, este texto vai ser uma nova experiência, diferente do que tenho feito até aqui, não é uma reflexão nem algo muito desenvolvido nem dramático.
É algo que vou fazer para uma amiga, penso que isso chegue para que seja tanto ou mais importante que os outros textos do blogue, de qualquer maneira prefiro-o escrever aqui do que no Word.
Sem mais a dizer, dou início ao conto.


Como é escuro o mar à noite, é negro, que cor feia, porém o mar à noite é tal e qual ao mar de dia, ele vem e vai... De longe trás histórias de aventuras, recordações felizes ou catastróficas, o mar é muito sábio, ele sabe a história do mundo, ele é mais velho do que qualquer pessoa, e mesmo que as montanhas, ele sabe de tudo, porém ele mantém todas as suas lendas e histórias em segredo e limita-se a vir e ir, vir e ir, vir e ir... com o mar viaja uma pedra muito peculiar, como todas as pedras do mar, ela guarda um segredo, uma história, mas neste momento é como todas as outras pedras, não passa disso uma pedra que viaja pelos mares.

Hoje, como todos os outros dias, amanheceu, o céu está azul claro, e o tempo bastante agradável, tal como todos os dias uma nova onda trouxe bastantes novas rochas de todas as cores e feitios, trouxe-as para a praia, um sítio onde as pedras podem descansar das suas longas jornadas pelo infinito mar azul. Porém hoje é diferente de todos os outros dias... há felicidade no ar, há um cheiro característico, enquanto as crianças apanham pedrinhas e fazem castelos de areia, os mais velhos passeiam à beira mar, vendo ao longe os bonitos barcos à vela.

Uma jovem rapariga agacha-se, e reparando numa pedra peculiar, resolveu apanha-la e guarda-la, a pedra como que sorriu foi naquele lugar, foi naquele exacto lugar que há muitos anos atrás, quando os monstros dominavam os mares, o amor reinava em terra e os humanos viviam em harmonia com a natureza...

Naquele tempo, nesse lugar longínquo os navegadores cruzavam os mares em busca de tesouros que a mãe natureza lhes reservava, e o mar, que era ligeiramente mais novo, brincava com os humanos, dificultando-lhes o caminho, no fundo, ambos sabem que apenas tornava a sua jornada mais fantástica e divertida.

Paul era um navegador, como muitos outros sonhava com aventuras incríveis tornadas realidade, mas naquele dia ele viveu algo muito maior que algum sonho seu.

-Paul, acorda!
O jovem rapaz caiu da cadeira quando os berros do capitão da caravela lhe chegaram aos ouvidos.

-Que se passa sr? Terra à vista? Monstros? Tempestades? - Disse Paul levantando-se ainda meio desorientado.

-Calma! Necessito que fique de vigia esta noite, correm rumores que os assaltos piratas estão cada vez a expandir-se mais para sul, nunca se sabe se podemos estar sob risco.

-Mas capitão, porquê eu?

-Sem mais perguntas, favor dirigir-se ao convés do Navio, quando o sol nascer, tem a minha permissão para descansar.

-Entendido Sr.

Ensonado e um pouco contrariado, Paul dirigiu-se para o convés do navio, mal ele sabia que essa noite ia mudar a sua vida... O céu estava estrelado, a grande lua iluminava o mar negro até ao horizonte, e a estrela do Norte indicava-lhes o caminho.
O vento soprava levemente, estava o clima perfeito... estava calmo... calmo de mais... os olhos ficavam cada vez mais pesados...
Paul adormeceu num profundo sono, naquela calma noite de verão...

Foi então que subitamente algo o acorda, o sol ainda não havia nascido, o vento havia desaparecido completamente e o barco estava parado no mesmo sítio, sem a mínima ondulação, Paul pôs-se alerta e um arrepio de medo percorreu o seu corpo dos pés aos cabelos quando ouve alguma coisa. O mesmo som que o tinha acordado, se fosse um monstro, não havia escapatória, o barco estava parado, não havia vento nem ondulação, apenas a lua e as estrelas para testemunharem a morte certa.

Não, Paul tirou esses pensamentos sinistros da sua cabeça, ganhou coragem e dirigiu-se para o sítio de onde vinha o som.

Estava lá, naquele momento Paul viu o que jamais algum humano deveria ver, o ser mais belo deste mundo, o sonho de qualquer navegador, uma lenda. Sim uma lenda, foi o que Paul viu: Uma sereia.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Nada.

Estou a morrer de tédio.
É um facto, não é ironia.
Não posso dizer que estou cansado, simplesmente desmotivado, no mundo há milhões de coisas interessantes, mas quando estamos a morrer de tédio, até a coisa mais interessante no mundo nos parece indiferente. Eu não quero saber, se vou se venho, se venho se fico, se faço se não faço se gosto se não gosto, eu não sei o que quero e o que não quero, eu sou vazio por dentro, um fantasma que não tem sentimentos, transparente, ninguém o vê... O meu problema não é falta de atenção. muito pelo contrário, eu não quero atenção, eu quero estar sozinho para poder desfrutar do meu mundo vazio e chato. O pior é que a própria atenção se tornou vazia.
Se tivesse sentimentos estaria desesperado, mas não estou, não me interessa, estou indiferente, não quero saber. Só estou a contribuir para o aumento do CO2 na atmosfera e a produzir lixo, basicamente, é o que sou e faço sou um assassino...
Eu não sei, eu nem me sei divertir, eu não sei comunicar,e já nem sei pensar pois para mim é tudo igual saltar ou rebolar, sol ou chuva... vida ou morte...
E quando dou por mim estou tão vazio que acabo a quebrar ideais até aqui bem consolidados!
Sempre defendi a vida, e que a vida é uma oportunidade de alcançarmos o poder, de podermos ser Deus.
Mas a minha vida é inútil, não porque não faço nada de útil para a sociedade pois 90% das pessoas não são necessárias. Mas porque eu perdi o meu deus, eu não tenho sonhos, eu não tenho em que pensar nos intervalos dos filmes, eu não tenho tema para falar com pessoas... Eu estou tão transparente que até perco as minhas memórias.
Bem... no fundo... não quero saber se me estou a desmoronar por dentro.
Provavelmente vocês tem uma vida pior que a minha. Para mim é tudo igual. Apenas tenho pena de não ter sonhos e objectivos, tenho pena de ser um ser vazio, sem alma...

Fim, não me apetece escrever, estou aborrecido.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Meia noite e um quarto.

Eram cinco da tarde, o azul negro do céu já há muito tinha sido substituído por tons de laranja avermelhado do entardecer, porém não se via o sol, naquela tarde, no cais vazio.
Deu um último olhar ao estranho mar de vermelho carregado sem a mínima ondulação e mergulhou pelo infinito do cais, já não via o início, muito menos o fim, o lado direito e esquerdo eram preenchidos pelo igualmente infinito mar vermelho. O cenário era sempre o mesmo: cais e mar, e continuava, sempre a mesma monotonia, retirando-lhe aos poucos e poucos a noção de realidade, pois naquele cenário o que menos existia era realidade, era como se estivesse a andar num tapete rolante e estivesse condenado a andar por aquele cais monótono para sempre, e então ia enlouquecendo aos poucos e poucos.
Passados 3 dias de caminhada de insanidade, o longo caminho do cais alargou formando um pequeno e largo quadrado de madeira onde duas pequenas caravelas estavam atracadas.
Uma delas era azul, estava vazia e à sua frente jazia uma mulher com o cabelo branco, vestida com um longo vestido. O seu olhar era vazio, e os seus olhos azuis pareciam mortos pois não olhavam absolutamente nada e no entanto, não se moviam um milímetro.
Já a outra caravela era de madeira normal, estava quase cheia, a gente que nela estava embarcada olhava o chão com um rosto triste e de sofrimento, à sua frente, um homem bem-parecido com um smoking preto cabelo negro e barba comprida exibia algo parecido com um sorriso na cara.
Como homem inteligente que era, Leonardo entendeu e dirigiu-se à caravela de madeira, não exibindo o mínimo de expressão facial. O homem de smoking esboçou um sorriso, porém não disse nada, e retirou um cigarro do bolso, acendeu-o e começou a fumar.
-Porque não tentas? – disse suavemente a mulher da embarcação ao lado, sem desviar o olhar do vazio, nem efectuar o mínimo movimento excepto o dos lábios.
Leonardo prosseguiu no caminho para a caravela de madeira, ignorando-a. O diabo permanecia sereno e indiferente.
-Louco. – Concluiu o anjo, conformando-se.
-Humano – Contra argumentou Leonardo calmamente.
-Porque te resignas tu simples humano a ir para o inferno, porque não tentas tua sorte?
-A curiosidade é pecado, minha bela jovem. – respondeu Leonardo, abrandando o seu pequeno caminho para a caravela.
-Como ousas julgar os outros, logo tu que mataste, cometeste o maior de todos os pecados.
-Eu não julgo ninguém, essa é a tua função, aparentemente…
-Aparentemente, dizes tu? Tu, que te julgas a ti próprio, julgas-te digno do inferno, julgas-te digno da dor, julgas-te tu digno de tal castigo, porque mataste, por seres criminoso, porque fizeste aquilo que ninguém tem o direito de fazer, retiraste o dom da vida, duas vezes!
-Eu não me julgo, eu apenas faço escolhas, como tu dizes sou um criminoso, cometi o maior dos pecados, e, de qualquer maneira já estava morto, há muito tempo, chegar a este local foi apenas mais uma decisão.
-Louco. Não passas de isso, és um louco, deitaste fora a única coisa que tinhas – a vida, tu não sabes, não entendes, vais ter saudades das complicações da vida, vais ter saudades do sofrimento que é a vida, vais ter saudades de tudo, mesmo que seja tudo, aparentemente mau, acredita, a eternidade é a pior coisa que existe.
Leonardo sorriu, o diabo começava a mostrar alguma indignação em relação à atitude do anjo.
-Tive os meus motivos, e tenho os meus motivos para escolher ir para esta barca de dor que me aguarda. Pois tu o mais pecador dos pecadores que te julgas digno de julgar os outros, apenas por estes não serem perfeitos, não ser perfeito é a definição de ser humano, e essa é que é a verdadeira perfeição, perfeição que não está ao alcance dos doidos ou das crianças, ou, por vezes, está ao alcance das crianças, mas isso, é obra vossa.
-Perfeito, dizes tu, de qualquer maneira se a perfeição fosse como tu dizes tu serias imperfeito, pois todo o humano, pecador, tenta alcançar o reino dos céus, porque não tu?
Deu-se uma breve pausa, de um momento para o outro, o diabo começou-se a aperceber que, afinal, não sabia tudo sobre o jovem rapaz que havia cometido o maior de todos os crimes, naquela noite, à meia-noite e um quarto. Aquele não era um rapaz vulgar.
- Vem – disse subitamente o diabo – sabes o que queres, e porque queres, isso para mim basta, entra na barca e vamos embora!
Dito isto o diabo pegou-lhe pelo ombro e virou-o, conforme se virou, viu-lhe os olhos, lágrimas, lágrimas de raiva, lágrimas que haviam esperado uma vida para ser derramadas, lágrimas que transportavam ódio, dor, sofrimento, angústia!
Naquele momento, no cais, Leonardo transformou-se em criança, chorava, sim, as crianças devem chorar, porque tem de comer a sopa, porque são contrariadas, é um direito que ninguém lhes pode negar, porém o menino nunca havia chorado, pois não havia encontrado situações suficientemente fúteis que merecessem as suas lágrimas.
-Porquê?! – Soluçava o menino – Ninguém quis saber! Ninguém quer saber, a culpa é toda vossa! Vocês levaram o papá, vocês levaram a mamã, vocês levaram-me a vida, vocês levaram-me para a vossa casa dos horrores e assassinaram-me no vosso mundo, assassinaram o meu coração! Fecharam os estores para ninguém ver, e ninguém viu, nem mesmo Deus, nem o vizinho da frente, fecharam os estores para que não pudesse entrar luz de amor na casa, e me pudesse salvar! Vocês ditaram toda a minha vida, obrigaram-me a ser adulto, quando todo o adulto para ser adulto tem de ser também criança, mas vocês mataram-na sem piedade, mataram a minha criança, e agora sou incompleto, não passo de uma aberração, um corpo sem alma, que apenas quer que um estore se abra, e lhe traga cor ao meu coração mutilado e cinzento! Vocês é que ditaram que eu viesse aqui não como um perfeito pecador, mas como um assassino, vocês destruíram o meu passado, o meu presente, e agora o meu futuro!
O menino soluçava cada vez mais estava agachado no chão, chorava, o coração inexistente do anjo e do diabo apertou. Deitou-se e começou a rebolar pelo chão do cais como um menino a fazer birra.
-Quero a mãe, quero o pai, quero o inferno e o mundo imperfeito, pois é lá onde eles estão à minha espera, para me dar colo!
Dito isto desequilibrou-se da berma do cais enquanto rebolava e caiu no imenso mar vermelho carregado. Foi o fim.
- Nenhum de nós alguma vez será merecedor da sua alma – disse a bela jovem de cabelo branco, deixando correr uma lágrima pelo canto do olho azul. O homem de smoking acenou com a cabeça, concordando. A lágrima do anjo deslizou pelo queixo caindo no chão, o diabo atirou a beata do cigarro ao mar, e o sol pôs-se finalmente, dando lugar ao misterioso negro da noite, e à tranquilizante luz de luar que se reflectia no mar, agora também ele negro.
-Há com cada besta – concluiu o parvo. As barcas partiram.

Quandos os Anjos Merecem Morrer...














As horas passavam vagarosamente, o tempo teimava em demorar-se, algures no mundo, algures no tempo, num amanhã próximo… Jack olhava a lua com os seus olhos verdes, olhava instintivamente o relógio, que parado, não lhe fazia mais que peso no pulso, mas esse tipo de peso não o afectava, encolheu os ombros, encostou-se atrás na macia colina relvada, continuou a olhar a Lua… Era a sua companhia, e não podia estar em melhor companhia. Jack imaginava, quantas pessoas naquele momento estariam a olhar a Lua, pelo mundo fora… umas tristes, outras felizes, ricos, pobres, rebeldes solitários e irmãos de uma enorme família… Realmente, Jack não podia estar em melhor companhia, tentava imaginar a vida de outros, adormecia, sonhava… E era assim todos as noites, até chegar o dia.

Aquela noite estava fria, mais fria que o habitual, as nuvens cobriam a lua, JAck procurou um sítio para se refugiar, porém aquela noite fria de inverno sentia-se em qualquer lugar, chuva… chuva que regava a árvore da mente e faz florescer as memórias. Adormeceu, num profundo e agitado sono…
-“O sol quando nasce, nasce para todos!”
Era o que a avó costumava a avó dizer ao menino sozinho em casa, ele não percebia, porém achava a frase muito bonita, então sentava-se no sofá, aconchegado a olhar para o vermelho doce e caloroso da lareira e o cheiro reconfortante das torradas da avó lhe faziam companhia e o faziam sentir-se bem.
Enquanto a neve teima em cair e a espera teima em demorar-se, (O tempo é o ser mais malvado que existe, o mais doloroso, muito pior do que as aulas de matemática da professora Alice, ou os sermões do Papá) a avó continua-lhe a contar histórias, histórias fantásticas, sobre anjos, deuses, santos… Segundo a avó eles é que ditam a história de uma pessoa, eles protegem-te dos demónios e impedem que algo de mal te aconteça, são eles os responsáveis por tudo o que acontece. A avó era um ídolo para o menino, uma heroína, uma espécie de coruja sábia, daquelas que costumam aparecer nas fábulas da Disney, e então o papá e a mãe chegavam e aí o corpo do menino enchia-se de alegria e euforia. O ritual repetia-se todos os dias, excepto nos fins-de-semana e feriados.
Era mais um dia comum na vida do menino, em casa da avó, continuava a olhar atentamente para o fogo que lhe ofuscava os olhos, porém sempre tinha tido um grande fascínio pelo mesmo, o recente gira discos do pai continuava a ouvir-se suavemente por toda a divisão, (“How many roads, must a man walk down…”) a avó dormia, e achou ser o momento certo para uma pequena exploração ao grande mistério que para o menino era a lareira… Os anjos não estavam com ele naquela tarde de Inverno, o fogo começou a querer como que fugir da prisão que era a lareira, fugiu, a avó teimava em dormir, a música teimava em tocar, e o calor teimava em aumentar, o pai e a mãe chegaram pouco depois, pegaram no menino, e trouxeram-no cá para fora, estava uma grande confusão, o pai voltou para dentro da casa, casa cujos demónios iam pintando de vermelho e, no céu cinzento, os anjos riam.


Nem o pai nem a avó voltaram a sair da casa naquele dia, por causa dos demónios, por causa dos anjos, por causa do menino, nos dias seguintes, a mãe chorava, o menino, a um canto, olhava-a seriamente, não sabia o que fazer, não sabia o que sentir, enquanto que os seus anjos e demónios tinham uma discussão acesa na sua cabeça ou então resolviam problemas de matemática complicados.
Num desses dias, a mãe aproximou-se dele, sorriu encheu-o de beijos, brincou com ele, os anjos e demónios foram descansar, e o menino sorriu e riu nesse dia, tal como os anjos haviam feito naquele dia cinzento. À noite a mãe despediu-se dele, com uma lágrima na cara, e com um terno beijo suave e doce, foi dormir. Também a mãe nunca mais voltou, o sol deixou de nascer como dizia a avó, ficou noite, noite para sempre, e enquanto os demónios mascarados de polícias o levaram para uma casa onde os anjos mascarados de freiras cuidavam de outros meninos que não tinham brilho nos olhos, também eles foram traídos pelos seus anjos e demónios, o menino não se conformou, correu, correu até não poder mais, porém desde aquele dia que o sol não nascia e no escuro era difícil orientar-se, procurava Deus, para que este soubesse do que havia acontecido com ele e com os outros meninos, para este os castigar, e para o guiar até casa onde estaria a avó, o pai, a mãe, as torradas, a lareira, e o gira discos.

Algures no tempo (O tempo é o ser mais malvado que existe, o mais doloroso, muito pior do que as aulas de matemática da professora Alice, ou os sermões do Papá) o comboio vai chegar, para o levar para um lugar onde o sol nasça e se ponha todos os dias, um lugar onde volte a sentir o calor aconchegante da família, o conforto da lareira, casa. E os anjos? Os anjos e os demónios, esses vão ter o que merecem, e não vão ousar repetir o feito, pois Deus não deixará!

Porém, por enquanto, o sol teima em não nascer, e Jack, continua à espera de um anjo que o guie a casa e lhe traga de novo o sol que ao contrário do que avó disse, não nasce para todos!