quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Meia noite e um quarto.

Eram cinco da tarde, o azul negro do céu já há muito tinha sido substituído por tons de laranja avermelhado do entardecer, porém não se via o sol, naquela tarde, no cais vazio.
Deu um último olhar ao estranho mar de vermelho carregado sem a mínima ondulação e mergulhou pelo infinito do cais, já não via o início, muito menos o fim, o lado direito e esquerdo eram preenchidos pelo igualmente infinito mar vermelho. O cenário era sempre o mesmo: cais e mar, e continuava, sempre a mesma monotonia, retirando-lhe aos poucos e poucos a noção de realidade, pois naquele cenário o que menos existia era realidade, era como se estivesse a andar num tapete rolante e estivesse condenado a andar por aquele cais monótono para sempre, e então ia enlouquecendo aos poucos e poucos.
Passados 3 dias de caminhada de insanidade, o longo caminho do cais alargou formando um pequeno e largo quadrado de madeira onde duas pequenas caravelas estavam atracadas.
Uma delas era azul, estava vazia e à sua frente jazia uma mulher com o cabelo branco, vestida com um longo vestido. O seu olhar era vazio, e os seus olhos azuis pareciam mortos pois não olhavam absolutamente nada e no entanto, não se moviam um milímetro.
Já a outra caravela era de madeira normal, estava quase cheia, a gente que nela estava embarcada olhava o chão com um rosto triste e de sofrimento, à sua frente, um homem bem-parecido com um smoking preto cabelo negro e barba comprida exibia algo parecido com um sorriso na cara.
Como homem inteligente que era, Leonardo entendeu e dirigiu-se à caravela de madeira, não exibindo o mínimo de expressão facial. O homem de smoking esboçou um sorriso, porém não disse nada, e retirou um cigarro do bolso, acendeu-o e começou a fumar.
-Porque não tentas? – disse suavemente a mulher da embarcação ao lado, sem desviar o olhar do vazio, nem efectuar o mínimo movimento excepto o dos lábios.
Leonardo prosseguiu no caminho para a caravela de madeira, ignorando-a. O diabo permanecia sereno e indiferente.
-Louco. – Concluiu o anjo, conformando-se.
-Humano – Contra argumentou Leonardo calmamente.
-Porque te resignas tu simples humano a ir para o inferno, porque não tentas tua sorte?
-A curiosidade é pecado, minha bela jovem. – respondeu Leonardo, abrandando o seu pequeno caminho para a caravela.
-Como ousas julgar os outros, logo tu que mataste, cometeste o maior de todos os pecados.
-Eu não julgo ninguém, essa é a tua função, aparentemente…
-Aparentemente, dizes tu? Tu, que te julgas a ti próprio, julgas-te digno do inferno, julgas-te digno da dor, julgas-te tu digno de tal castigo, porque mataste, por seres criminoso, porque fizeste aquilo que ninguém tem o direito de fazer, retiraste o dom da vida, duas vezes!
-Eu não me julgo, eu apenas faço escolhas, como tu dizes sou um criminoso, cometi o maior dos pecados, e, de qualquer maneira já estava morto, há muito tempo, chegar a este local foi apenas mais uma decisão.
-Louco. Não passas de isso, és um louco, deitaste fora a única coisa que tinhas – a vida, tu não sabes, não entendes, vais ter saudades das complicações da vida, vais ter saudades do sofrimento que é a vida, vais ter saudades de tudo, mesmo que seja tudo, aparentemente mau, acredita, a eternidade é a pior coisa que existe.
Leonardo sorriu, o diabo começava a mostrar alguma indignação em relação à atitude do anjo.
-Tive os meus motivos, e tenho os meus motivos para escolher ir para esta barca de dor que me aguarda. Pois tu o mais pecador dos pecadores que te julgas digno de julgar os outros, apenas por estes não serem perfeitos, não ser perfeito é a definição de ser humano, e essa é que é a verdadeira perfeição, perfeição que não está ao alcance dos doidos ou das crianças, ou, por vezes, está ao alcance das crianças, mas isso, é obra vossa.
-Perfeito, dizes tu, de qualquer maneira se a perfeição fosse como tu dizes tu serias imperfeito, pois todo o humano, pecador, tenta alcançar o reino dos céus, porque não tu?
Deu-se uma breve pausa, de um momento para o outro, o diabo começou-se a aperceber que, afinal, não sabia tudo sobre o jovem rapaz que havia cometido o maior de todos os crimes, naquela noite, à meia-noite e um quarto. Aquele não era um rapaz vulgar.
- Vem – disse subitamente o diabo – sabes o que queres, e porque queres, isso para mim basta, entra na barca e vamos embora!
Dito isto o diabo pegou-lhe pelo ombro e virou-o, conforme se virou, viu-lhe os olhos, lágrimas, lágrimas de raiva, lágrimas que haviam esperado uma vida para ser derramadas, lágrimas que transportavam ódio, dor, sofrimento, angústia!
Naquele momento, no cais, Leonardo transformou-se em criança, chorava, sim, as crianças devem chorar, porque tem de comer a sopa, porque são contrariadas, é um direito que ninguém lhes pode negar, porém o menino nunca havia chorado, pois não havia encontrado situações suficientemente fúteis que merecessem as suas lágrimas.
-Porquê?! – Soluçava o menino – Ninguém quis saber! Ninguém quer saber, a culpa é toda vossa! Vocês levaram o papá, vocês levaram a mamã, vocês levaram-me a vida, vocês levaram-me para a vossa casa dos horrores e assassinaram-me no vosso mundo, assassinaram o meu coração! Fecharam os estores para ninguém ver, e ninguém viu, nem mesmo Deus, nem o vizinho da frente, fecharam os estores para que não pudesse entrar luz de amor na casa, e me pudesse salvar! Vocês ditaram toda a minha vida, obrigaram-me a ser adulto, quando todo o adulto para ser adulto tem de ser também criança, mas vocês mataram-na sem piedade, mataram a minha criança, e agora sou incompleto, não passo de uma aberração, um corpo sem alma, que apenas quer que um estore se abra, e lhe traga cor ao meu coração mutilado e cinzento! Vocês é que ditaram que eu viesse aqui não como um perfeito pecador, mas como um assassino, vocês destruíram o meu passado, o meu presente, e agora o meu futuro!
O menino soluçava cada vez mais estava agachado no chão, chorava, o coração inexistente do anjo e do diabo apertou. Deitou-se e começou a rebolar pelo chão do cais como um menino a fazer birra.
-Quero a mãe, quero o pai, quero o inferno e o mundo imperfeito, pois é lá onde eles estão à minha espera, para me dar colo!
Dito isto desequilibrou-se da berma do cais enquanto rebolava e caiu no imenso mar vermelho carregado. Foi o fim.
- Nenhum de nós alguma vez será merecedor da sua alma – disse a bela jovem de cabelo branco, deixando correr uma lágrima pelo canto do olho azul. O homem de smoking acenou com a cabeça, concordando. A lágrima do anjo deslizou pelo queixo caindo no chão, o diabo atirou a beata do cigarro ao mar, e o sol pôs-se finalmente, dando lugar ao misterioso negro da noite, e à tranquilizante luz de luar que se reflectia no mar, agora também ele negro.
-Há com cada besta – concluiu o parvo. As barcas partiram.

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