Imagina que amanhã acordas desconfortável num leito duro. Faz muito calor, mas nem as grandes janelas abertas da divisão vazia em que te encontras, nem a sombra que o tecto faz cair sobre ti te refrescam. Não há torneiras nesse sítio. Não tens acesso a água nessa divisão, mas tens sede. Não há frigorífico, nem microondas, nem dispensa. Não tens acesso a comida nessa divisão, mas tens fome. Não há pessoas, nem computadores nem telemóveis nessa divisão, mas tens necessidade de contacto. Não há relógio nem mobília nem papéis nessa divisão, mas tens necessidade de te organizar. Não tens qualquer tipo de tecido a acariciar-te o corpo, mas tens pudor. Porém, acima de tudo, tens curiosidade e, felizmente, há janelas, uma porta e exterior.
A informação preencheu as poucas horas que se seguiram.
O teu nome permanece teu. Porém, este faz-se acompanhar apenas pelo corpo. Passaram-se cinquenta anos e o Mundo permanece igual. Tu, por outro lado mudaste. Perdeste. Perdeste a tua oportunidade. Falhaste na realização dos teus sonhos.
Falhaste na concretização dos teus projectos.
Falhaste até na conclusão dos teus planos mais irrisórios.
Perdeste as tuas maiores conquistas, perdeste as mais pequenas.
Perdeste os teus bens mais e menos preciosos.
De alguma maneira, perdeste o contacto de todos os teus conhecidos.
Perdeste as pessoas mais importantes.
Perdeste amigos e família.
Perdeste a capacidade de te sustentar.
Perdeste o respeito dos outros.
Perdeste os teus valores.
Perdeste o respeito pelos outros.
Perdeste os teus maiores talentos.
Perdeste os talentos mais pequenos.
Perdeste as tuas capacidades mais inatas.
Perdeste a capacidade de fazer pequenos truques peculiares que fazias com o corpo.
Perdeste a credibilidade.
Perdeste a tua educação.
Perdeste a tua saúde.
Perdeste os teus maiores valores.
Perdeste até os valores mais pequenos.
O Mundo permanece intacto.
Tens uma mesa e três cadeiras. Sentas-te.
Imagina que amanhã acordas no leito confortável de alguém. Uma brisa fresca de origem quase celestial refresca-te o acordar num dia de calor ameno de Verão. Um ecrã incorporado no tecto que paira sobre ti informa-te de uma data que te dista cinquenta anos.
És seguidamente direccionado pelo estímulo olfactivo da confecção ex libris do teu apetite matinal, a uma mesa com várias cadeiras e o rosto intacto do teu familiar mais afectivo que te sacia abundantemente toda a tua curiosidade eminente.
O Mundo evoluiu bastante. Tu, por outro lado, mantens-te razoavelmente identificável.
Realizaste os teus maiores sonhos.
Concretizas-te todos os teus projectos.
Tiveste até oportunidade de exercer profissões distintas.
Foste significativo para o Mundo.
Alcançaste até os teus desejos mais supérfulos.
Conseguiste manter-te rodeado de todos os que te eram importantes.
Conseguiste dar-lhes boas vidas.
Conseguiste mantê-los vivos e saudáveis.
O teu tempo é agora preenchido exclusivamente pelos teus hobbies mais prazerosos.
És uma pessoa respeitável.
Enriqueceste os teus valores. És coerente e sensato.
Conseguiste suprimir os teus defeitos mais repugnantes.
Cultivaste os teus talentos e tornaste-te mestre nas tuas artes.
Descobriste em ti novos talentos.
Experimentaste as melhores sensações.
As tuas características mais discretas são identificativas no teu círculo social.
As tuas características mais gerais são referenciadas mundialmente.
Já nenhuma situação se pode opor-se de maneira real à tua vida, apanhar-te desprevinido.
Já nenhum perigo podes correr que não seja também seguro.
Alcançaste os valores mais práticos e correctos.
Alcançaste o corpo mais saudável, e eficiente.
O Mundo cresceu contigo.
Viajas. Encontras um velho sentado a uma mesa com duas cadeiras vagas. Sentas-te.
Imagina o momento que antecede o acordar. Imediatamente quando o primeiro tom do despertador toca no tímpano.
Não acordes.
Tens uma mesa com dois velhos sentados. Um deles esquelético nu, moribundo. Outro deles bem cuidado de vestimenta confortável e estética. Discutem calmamente sobre um tesouro. Há uma cadeira vaga entre eles. Sentas-te.
Reconhece-los.
Pedes conselhos, mas não há tempo, a segunda nota do despertador já atingiu bruscamente o tímpano.
Em uníssono, ambos te dizem o mesmo.
Acordas.
A vigilante Realidade preparou-te comodamente o acordar de modo a não sofreres surpresas.
Não há maior tesouro do que ter a vida pela frente.