Eram cinco da tarde, o azul negro do céu já há muito tinha sido substituído por tons de laranja avermelhado do entardecer, porém não se via o sol, naquela tarde, no cais vazio.
Deu um último olhar ao estranho mar de vermelho carregado sem a mínima ondulação e mergulhou pelo infinito do cais, já não via o início, muito menos o fim, o lado direito e esquerdo eram preenchidos pelo igualmente infinito mar vermelho. O cenário era sempre o mesmo: cais e mar, e continuava, sempre a mesma monotonia, retirando-lhe aos poucos e poucos a noção de realidade, pois naquele cenário o que menos existia era realidade, era como se estivesse a andar num tapete rolante e estivesse condenado a andar por aquele cais monótono para sempre, e então ia enlouquecendo aos poucos e poucos.
Passados 3 dias de caminhada de insanidade, o longo caminho do cais alargou formando um pequeno e largo quadrado de madeira onde duas pequenas caravelas estavam atracadas.
Uma delas era azul, estava vazia e à sua frente jazia uma mulher com o cabelo branco, vestida com um longo vestido. O seu olhar era vazio, e os seus olhos azuis pareciam mortos pois não olhavam absolutamente nada e no entanto, não se moviam um milímetro.
Já a outra caravela era de madeira normal, estava quase cheia, a gente que nela estava embarcada olhava o chão com um rosto triste e de sofrimento, à sua frente, um homem bem-parecido com um smoking preto cabelo negro e barba comprida exibia algo parecido com um sorriso na cara.
Como homem inteligente que era, Leonardo entendeu e dirigiu-se à caravela de madeira, não exibindo o mínimo de expressão facial. O homem de smoking esboçou um sorriso, porém não disse nada, e retirou um cigarro do bolso, acendeu-o e começou a fumar.
-Porque não tentas? – disse suavemente a mulher da embarcação ao lado, sem desviar o olhar do vazio, nem efectuar o mínimo movimento excepto o dos lábios.
Leonardo prosseguiu no caminho para a caravela de madeira, ignorando-a. O diabo permanecia sereno e indiferente.
-Louco. – Concluiu o anjo, conformando-se.
-Humano – Contra argumentou Leonardo calmamente.
-Porque te resignas tu simples humano a ir para o inferno, porque não tentas tua sorte?
-A curiosidade é pecado, minha bela jovem. – respondeu Leonardo, abrandando o seu pequeno caminho para a caravela.
-Como ousas julgar os outros, logo tu que mataste, cometeste o maior de todos os pecados.
-Eu não julgo ninguém, essa é a tua função, aparentemente…
-Aparentemente, dizes tu? Tu, que te julgas a ti próprio, julgas-te digno do inferno, julgas-te digno da dor, julgas-te tu digno de tal castigo, porque mataste, por seres criminoso, porque fizeste aquilo que ninguém tem o direito de fazer, retiraste o dom da vida, duas vezes!
-Eu não me julgo, eu apenas faço escolhas, como tu dizes sou um criminoso, cometi o maior dos pecados, e, de qualquer maneira já estava morto, há muito tempo, chegar a este local foi apenas mais uma decisão.
-Louco. Não passas de isso, és um louco, deitaste fora a única coisa que tinhas – a vida, tu não sabes, não entendes, vais ter saudades das complicações da vida, vais ter saudades do sofrimento que é a vida, vais ter saudades de tudo, mesmo que seja tudo, aparentemente mau, acredita, a eternidade é a pior coisa que existe.
Leonardo sorriu, o diabo começava a mostrar alguma indignação em relação à atitude do anjo.
-Tive os meus motivos, e tenho os meus motivos para escolher ir para esta barca de dor que me aguarda. Pois tu o mais pecador dos pecadores que te julgas digno de julgar os outros, apenas por estes não serem perfeitos, não ser perfeito é a definição de ser humano, e essa é que é a verdadeira perfeição, perfeição que não está ao alcance dos doidos ou das crianças, ou, por vezes, está ao alcance das crianças, mas isso, é obra vossa.
-Perfeito, dizes tu, de qualquer maneira se a perfeição fosse como tu dizes tu serias imperfeito, pois todo o humano, pecador, tenta alcançar o reino dos céus, porque não tu?
Deu-se uma breve pausa, de um momento para o outro, o diabo começou-se a aperceber que, afinal, não sabia tudo sobre o jovem rapaz que havia cometido o maior de todos os crimes, naquela noite, à meia-noite e um quarto. Aquele não era um rapaz vulgar.
- Vem – disse subitamente o diabo – sabes o que queres, e porque queres, isso para mim basta, entra na barca e vamos embora!
Dito isto o diabo pegou-lhe pelo ombro e virou-o, conforme se virou, viu-lhe os olhos, lágrimas, lágrimas de raiva, lágrimas que haviam esperado uma vida para ser derramadas, lágrimas que transportavam ódio, dor, sofrimento, angústia!
Naquele momento, no cais, Leonardo transformou-se em criança, chorava, sim, as crianças devem chorar, porque tem de comer a sopa, porque são contrariadas, é um direito que ninguém lhes pode negar, porém o menino nunca havia chorado, pois não havia encontrado situações suficientemente fúteis que merecessem as suas lágrimas.
-Porquê?! – Soluçava o menino – Ninguém quis saber! Ninguém quer saber, a culpa é toda vossa! Vocês levaram o papá, vocês levaram a mamã, vocês levaram-me a vida, vocês levaram-me para a vossa casa dos horrores e assassinaram-me no vosso mundo, assassinaram o meu coração! Fecharam os estores para ninguém ver, e ninguém viu, nem mesmo Deus, nem o vizinho da frente, fecharam os estores para que não pudesse entrar luz de amor na casa, e me pudesse salvar! Vocês ditaram toda a minha vida, obrigaram-me a ser adulto, quando todo o adulto para ser adulto tem de ser também criança, mas vocês mataram-na sem piedade, mataram a minha criança, e agora sou incompleto, não passo de uma aberração, um corpo sem alma, que apenas quer que um estore se abra, e lhe traga cor ao meu coração mutilado e cinzento! Vocês é que ditaram que eu viesse aqui não como um perfeito pecador, mas como um assassino, vocês destruíram o meu passado, o meu presente, e agora o meu futuro!
O menino soluçava cada vez mais estava agachado no chão, chorava, o coração inexistente do anjo e do diabo apertou. Deitou-se e começou a rebolar pelo chão do cais como um menino a fazer birra.
-Quero a mãe, quero o pai, quero o inferno e o mundo imperfeito, pois é lá onde eles estão à minha espera, para me dar colo!
Dito isto desequilibrou-se da berma do cais enquanto rebolava e caiu no imenso mar vermelho carregado. Foi o fim.
- Nenhum de nós alguma vez será merecedor da sua alma – disse a bela jovem de cabelo branco, deixando correr uma lágrima pelo canto do olho azul. O homem de smoking acenou com a cabeça, concordando. A lágrima do anjo deslizou pelo queixo caindo no chão, o diabo atirou a beata do cigarro ao mar, e o sol pôs-se finalmente, dando lugar ao misterioso negro da noite, e à tranquilizante luz de luar que se reflectia no mar, agora também ele negro.
-Há com cada besta – concluiu o parvo. As barcas partiram.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Quandos os Anjos Merecem Morrer...
As horas passavam vagarosamente, o tempo teimava em demorar-se, algures no mundo, algures no tempo, num amanhã próximo… Jack olhava a lua com os seus olhos verdes, olhava instintivamente o relógio, que parado, não lhe fazia mais que peso no pulso, mas esse tipo de peso não o afectava, encolheu os ombros, encostou-se atrás na macia colina relvada, continuou a olhar a Lua… Era a sua companhia, e não podia estar em melhor companhia. Jack imaginava, quantas pessoas naquele momento estariam a olhar a Lua, pelo mundo fora… umas tristes, outras felizes, ricos, pobres, rebeldes solitários e irmãos de uma enorme família… Realmente, Jack não podia estar em melhor companhia, tentava imaginar a vida de outros, adormecia, sonhava… E era assim todos as noites, até chegar o dia.
Aquela noite estava fria, mais fria que o habitual, as nuvens cobriam a lua, JAck procurou um sítio para se refugiar, porém aquela noite fria de inverno sentia-se em qualquer lugar, chuva… chuva que regava a árvore da mente e faz florescer as memórias. Adormeceu, num profundo e agitado sono…
-“O sol quando nasce, nasce para todos!”
Era o que a avó costumava a avó dizer ao menino sozinho em casa, ele não percebia, porém achava a frase muito bonita, então sentava-se no sofá, aconchegado a olhar para o vermelho doce e caloroso da lareira e o cheiro reconfortante das torradas da avó lhe faziam companhia e o faziam sentir-se bem.
Enquanto a neve teima em cair e a espera teima em demorar-se, (O tempo é o ser mais malvado que existe, o mais doloroso, muito pior do que as aulas de matemática da professora Alice, ou os sermões do Papá) a avó continua-lhe a contar histórias, histórias fantásticas, sobre anjos, deuses, santos… Segundo a avó eles é que ditam a história de uma pessoa, eles protegem-te dos demónios e impedem que algo de mal te aconteça, são eles os responsáveis por tudo o que acontece. A avó era um ídolo para o menino, uma heroína, uma espécie de coruja sábia, daquelas que costumam aparecer nas fábulas da Disney, e então o papá e a mãe chegavam e aí o corpo do menino enchia-se de alegria e euforia. O ritual repetia-se todos os dias, excepto nos fins-de-semana e feriados.
Era mais um dia comum na vida do menino, em casa da avó, continuava a olhar atentamente para o fogo que lhe ofuscava os olhos, porém sempre tinha tido um grande fascínio pelo mesmo, o recente gira discos do pai continuava a ouvir-se suavemente por toda a divisão, (“How many roads, must a man walk down…”) a avó dormia, e achou ser o momento certo para uma pequena exploração ao grande mistério que para o menino era a lareira… Os anjos não estavam com ele naquela tarde de Inverno, o fogo começou a querer como que fugir da prisão que era a lareira, fugiu, a avó teimava em dormir, a música teimava em tocar, e o calor teimava em aumentar, o pai e a mãe chegaram pouco depois, pegaram no menino, e trouxeram-no cá para fora, estava uma grande confusão, o pai voltou para dentro da casa, casa cujos demónios iam pintando de vermelho e, no céu cinzento, os anjos riam.
Nem o pai nem a avó voltaram a sair da casa naquele dia, por causa dos demónios, por causa dos anjos, por causa do menino, nos dias seguintes, a mãe chorava, o menino, a um canto, olhava-a seriamente, não sabia o que fazer, não sabia o que sentir, enquanto que os seus anjos e demónios tinham uma discussão acesa na sua cabeça ou então resolviam problemas de matemática complicados.
Num desses dias, a mãe aproximou-se dele, sorriu encheu-o de beijos, brincou com ele, os anjos e demónios foram descansar, e o menino sorriu e riu nesse dia, tal como os anjos haviam feito naquele dia cinzento. À noite a mãe despediu-se dele, com uma lágrima na cara, e com um terno beijo suave e doce, foi dormir. Também a mãe nunca mais voltou, o sol deixou de nascer como dizia a avó, ficou noite, noite para sempre, e enquanto os demónios mascarados de polícias o levaram para uma casa onde os anjos mascarados de freiras cuidavam de outros meninos que não tinham brilho nos olhos, também eles foram traídos pelos seus anjos e demónios, o menino não se conformou, correu, correu até não poder mais, porém desde aquele dia que o sol não nascia e no escuro era difícil orientar-se, procurava Deus, para que este soubesse do que havia acontecido com ele e com os outros meninos, para este os castigar, e para o guiar até casa onde estaria a avó, o pai, a mãe, as torradas, a lareira, e o gira discos.
Algures no tempo (O tempo é o ser mais malvado que existe, o mais doloroso, muito pior do que as aulas de matemática da professora Alice, ou os sermões do Papá) o comboio vai chegar, para o levar para um lugar onde o sol nasça e se ponha todos os dias, um lugar onde volte a sentir o calor aconchegante da família, o conforto da lareira, casa. E os anjos? Os anjos e os demónios, esses vão ter o que merecem, e não vão ousar repetir o feito, pois Deus não deixará!
Porém, por enquanto, o sol teima em não nascer, e Jack, continua à espera de um anjo que o guie a casa e lhe traga de novo o sol que ao contrário do que avó disse, não nasce para todos!
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