Desviver, gastar vida, ruminar, sei lá, isto. Estou a morrer. Isto não me assusta, repugna-me. Cada dia que passa, falha uma pilha.
Sempre me perguntei porque as pessoas tinham medo de morrer, sempre me pareceu algo tão natural. Para que pensar nisso. A vida é que interessa. É a dor? É o mistério? São as saudades? É o infinito? Não, não é nada disto, é algo bem pior, algo tão profundo e poderoso que consegue despertar o humor mais melancólico, até pode fazer impressão na barriga.
São os remorsos. Remorsos de oportunidades não aproveitadas, promessas que ficaram por cumprir, intenções que não passaram disso. Não é a dúvida. É a certeza, a consolidação que todos os nossos remorsos serão permanentes. Que todas aquelas coisas que sempre pensamos alterar se vão manter assim para sempre. Não é a morte. É o passado. Engraçado não é? O medo da morte não residir nem num presente doloroso nem num futuro inexistente, mas sim num passado aparentemente sem relação.
Cada dia que passa estou a ficar igual a eles. A morrer portanto.
Tudo começou quando me comecei a interessar cada vez mais por assuntos fúteis, depois, a minha atenção a assuntos fúteis foi aumentando. E o espaço de tempo em que me concretizava foi diminuindo. Primeiro deixei de sentir, deixei de tirar prazer daquilo que é importante. Estava demasiado preso aos assuntos supérfluos, para poder tirar prazer doutra coisa. Depois, comecei a viver nos assuntos fúteis. Eles passaram a dominar não só o meu pensamento como a minha vida. Nesta fase qualquer tentativa de sentir passou a ser completamente impossível, passei a fingir, para as pessoas continuarem a dar-me valor. Falhei, elas notavam, não era elas que eu queria enganar. Envolvi-me, mais e mais, passei a tirar prazer de tudo o que me fizesse lembrar de sentir. Mas só naquele momento me convenci do que se estava a passar, no momento em que vi que não conseguia criar. Soube, toda a realidade me caiu em cima, estou a morrer. Se não consigo sentir, é natural que não consiga criar, o próximo passo é parar de pensar. Por completo. Isto, este texto, é o que me resta. É o que resta de mim, da minha vida. É provavelmente o meu último texto. Sei que da próxima vez que o ler não o vou entender. :) Não te preocupes, agora sim, és, e podes ser, feliz.